Solos
de Valdemar
Santos


Solos de Valdemar Santos
(com SELOS de Alberto Pimenta) Edições Éterogémeas

Solos de Valdemar Santos
(com SELOS de Alberto Pimenta) Edições Éterogémeas

Olhar
com Ouvido
Absoluto

Emílio Remelhe




in Postcards Poste Restante, edições Gémeo R, 2007.

… Beneficiando das escavações da visão pelo olhar (Gil), VS percorre, reconhece, colecciona, diversifica modalidades de estudo: entre o caderno de desenho, a máquina fotográfica, a vista desarmada e a mão parada, implica-se na escolha, multiplica-se nos automatismos, amplia-se no "conhecimento com os olhos" (ou olhar sem opinião, no sentido que Alberto Pimenta reconhece em Alberto Caeiro); e subtrai-se, por fim, em enunciados. … VS não entrou nestas paisagens que nos (re)envia. O seu interesse não reside, afinal, na paisagem aberta em diálogo mudo com o corpo, mas numa outra: a paisagem representada, pensada, trasladada do corpo para a mente por acção da linguagem (aquela que por esta é dominada e até recalcada); paisagem já imagem, espessa em camadas de sentido. Neste caso, as imagens do montanhismo. Convocando o património semântico desta actividade através do seu repertório fotográfico em publicações da especialidade, VS modela através dele o seu discurso. As imagens alimentam as imagens. E melhor do que desejá-las é tê-las desejado a seu convite, usar da sua disponibilidade, construir argumentos com ou através delas. VS cita, ironiza, parodia: numa refinaria industriosa, seguramente afastada do vulgar estigma da paródia, o ridículo desdenhoso e muito perto da homenagem reverencial (Hutcheon). …





Fragmentos
e Analogias

Victor Diniz




in catálogo da exposição
My Gardener is Bielorrusian, CAPC, Coimbra, 2005.

Em "My gardener is bielorussian", Valdemar Santos redefine o centro da acção, formalmente apresentada e constituída por uma instalação, no propósito de estabelecer um determinado efeito cénico que suporte a sua narrativa. Esta por sua vez transmite uma ideia de um quotidiano presente, o do universo do trabalho, que opera como centro difusor de emanação sociopolítica, e dentro deste contexto é sintetizada através de uma cercadura de contestação e crítica. Nesta perspectiva e num desvio pela norma, evidencia-se a criação de ambiências oníricas predefinidas integradas num conjunto de imagens e de formas com valor específico, que na proporção certa acabam por nos transportar para dentro de um universo poético, cuja essência passa pela mutação de tempos e pela mudança de lugares.

É apresentada uma abordagem plástica/pictórica à realidade da existência de um jardineiro bielorusso, e à sua terra natal — região de Grodna, evidentemente na Bielorussia. Esta abordagem é invocada dentro de uma perspectiva de tempo presente: globalização e fronteira. Valdemar Santos evidencia assim uma noção de contemporaneidade remetendo-nos para as questões referidas bem como suas agregadas decorrências mais implícitas, sem todavia deixar de ter em conta um lado sensorial, sensitivo e onírico, marcando e organizando através da sua interrelação com a paisagem uma delimitação em torno do espaço plástico, e assumindo essa mesma relação com a paisagem uma condição de metáfora e de símbolo.





Ilustrar
o lugar

Valter Hugo Mãe




in, Magazine Artes, nº 19, Junho 2004


"… da casa do cão que tinha um marinheiro", título desta exposição de Valdemar Santos, é uma história contada pela escuridão, digamos, é uma passagem pelo conto de Herberto não pelos elementos mais visíveis mas antes pelas impressões menores, pelos indícios mais escondidos que sustentam sobretudo o espaço, evocado mas não descrito pelo poeta, onde a narrativa pode ocorrer. Pintados usando uma maqueta como modelo, estes quadros sublinham de modo garrido a sua relação com percepções arquitectónicas e cenográficas. Na verdade, esse trabalho prévio de construir em três dimensões o motivo a pintar, tange os mundos da arquitectura e do espectáculo de palco. … Cada imagem é sobretudo — e desde logo por ser claramente um negativo preparado para ser revelado e dotado de cor, como acontece com a fotografia —, um elemento onde algo de invisível se suspeita. Ou, por outro lado, cada imagem é um lugar vazio à espera de permitir a visibilidade para algo.



Da casa
do cão
que tinha
um marinheiro

Bernardo Pinto de Almeida




in catálogo da exposição
Galeria Fernando Santos, 2004.



Valdemar Santos apresenta-nos, nesta nova série de trabalhos, uma série de obras que, ainda que tal referência se explicite apenas no título, se reporta a um enigmático conto, algo kafkiano, de Herberto Helder, intitulado Cães, Marinheiros. Todavia, na sua pintura, que esta nova exposição mostra ter ganho uma espessura conceptual cada vez mais nítida, nada ocorre daquilo que poderíamos designar como algo em que se inscrevesse uma pertença ao domínio da ilustração. Ou seja, daquilo que seria passar para a ordem da imagem o que teria a sua origem na ordem do texto. Sendo certo que o referido conto de Herberto Helder, como aliás ocorre com toda a sua restante obra, cobre uma vasta rede de glorificação da imagem e das forças e intensidades do imaginário, essa relação com o espaço literário, que sempre constituiu um motivo de perigosidade para as artes visuais, poderia ver-se em si mesma atenuada no que dissesse respeito a uma relação ilustrativa com um texto anterior. No entanto, e como sempre acontece quando é o próprio artista que o assume, como neste caso, essa relação está lá de alguma forma inscrita, mesmo se desde logo se evidencia como não estando dominada pelo sentido ilustrativo. Um texto, para um artista, pode ser, sabemo-lo bem, apenas um pretexto. E tanto mais quanto há uma medida, de alguma maneira inapreensível, que pode fazer desse mesmo texto o motor sub-reptício que desencadeia, em qualquer um de nós, a súbita deflagração de uma rede de imagens, sejam estas mentais, oníricas ou até materializadas numa dimensão tão visual como a da pintura. A questão, porém, reside em tentarmos compreender em que medida essas relações subtis interferem reciprocamente no acto da pintura ou no da escrita — quantas vezes não é um quadro o que suscita um texto, e quantos não conhecemos já dessa família? — e, com isso, compreender que o universo visual das imagens podendo ser motivado por uma palavra, uma frase, uma forma que não nasceu directamente da própria ordem das imagens, nem por isso deixar de lhe pertencer de pleno direito.



O Esplendor
da Imagem

Bernardo Pinto de Almeida




in catálogo da exposição
Quase Lugares. Galeria Gomes Alves, 2002.



O Trabalho de Valdemar Santos, inscreve-se claramente numa estratégia visual típica da década de noventa, em que a reutilização da pintura como suporte por excelência não evidência uma vontade académica de regresso ao quadro, ou sequer uma crítica pós-conceptual de certos maneirismos minimalistas — como ocorreu com o chamado regresso à pintura da década de oitenta — mas antes se prende com uma hipótese de fazer dessa tecnologia o móbil de uma exploração (e de uma reinvenção) da imagem enquanto imagem. … Assim as casas, as nuvens, as colinas ou as árvores que aparecem na pintura de Valdemar Santos, nessa medida em que não participam de uma vontade representativa, são puras criações imaginárias, em segundo ou em terceiro grau — semelhantes às que poderíamos obter por manipulação em computador — cujo valor é meramente residual em relação à representação e que, desse modo (ou através desse processo) se aproximam do que designamos por imagem entendida enquanto realidade diferida do real tal como o conhecemos. (…) … E se o resultado de tal esforço nos parece por agora decorativo e até gracioso, se tal nos parece como encantadoramente sugestivo na sua flutuação imagística de suaves cores e referências breves a idealizações de paisagem, tal não deverá no entanto distrair-nos daquilo que deveras anuncia desde o fundo de si mesmo: muito mais do que um devir-real do imaginário (sonho modernista que os surrealistas perseguiram sem descanso e até às suas últimas consequências) trata-se, de facto, de um devir-imaginário do real.





Melancolia,
Nostalgia,
Sonho ...

Ricardo Figueiredo




in catálogo da exposição
Quase sempre vemos o que toda a gente vê,
Galeria Arte e Manifesto, Porto, 2000.


Em "My gardener is bielorussian", Valdemar Santos redefine o centro da acção, formalmente apresentada e constituída por uma instalação, no propósito de estabelecer um determinado efeito cénico que suporte a sua narrativa. Esta por sua vez transmite uma ideia de um quotidiano presente, o do universo do trabalho, que opera como centro difusor de emanação sociopolítica, e dentro deste contexto é sintetizada através de uma cercadura de contestação e crítica. Nesta perspectiva e num desvio pela norma, evidencia-se a criação de ambiências oníricas predefinidas integradas num conjunto de imagens e de formas com valor específico, que na proporção certa acabam por nos transportar para dentro de um universo poético, cuja essência passa pela mutação de tempos e pela mudança de lugares.

É apresentada uma abordagem plástica/pictórica à realidade da existência de um jardineiro bielorusso, e à sua terra natal — região de Grodna, evidentemente na Bielorussia. Esta abordagem é invocada dentro de uma perspectiva de tempo presente: globalização e fronteira. Valdemar Santos evidencia assim uma noção de contemporaneidade remetendo-nos para as questões referidas bem como suas agregadas decorrências mais implícitas, sem todavia deixar de ter em conta um lado sensorial, sensitivo e onírico, marcando e organizando através da sua interrelação com a paisagem uma delimitação em torno do espaço plástico, e assumindo essa mesma relação com a paisagem uma condição de metáfora e de símbolo.



A Irrealidade
das Aparências

Maria João Fernandes




in catálogo da exposição Quase sempre vemos
o que toda a gente vê
Galeria Arte e Manifesto, Porto, 2000.

A pintura de Valdemar Santos interroga uma maravilhosa sensorialidade, revelando a sua íntima e mágica ressonância, a realidade frágil das aparências subtilmente transfigurada pelo sonho e pelo desejo. Essa realidade brilha na pureza e na simplicidade das suas linhas, configurando uma essência nua e luminosa, abrindo-nos o limiar de uma leveza que se nos afigura o plástico rosto da liberdade. … As suas imagens situam-se no próprio território da imagem em sintonia com um real que se define pela permanência e a constante metamorfose. Também o real cria as suas imagens, duplos de uma fantasia que é inerente à sua natureza, à natureza.